Um repórter, uma editora: caminhos diferentes no jornalismo internacional.
Neuma Dantas
Convidada para participar do Seminário Internacional de Jornalismo, a editora do Caderno Mundo, do Jornal Folha de São Paulo, Cláudia Antunes, falou, entre outros assuntos, das diferenças do fazer jornalístico moderno, sobre o processo de produção do jornal, das dificuldades de cobrir os eventos estrangeiros e da posição política brasileira perante a comunidade internacional.
Convidada para participar do Seminário Internacional de Jornalismo, a editora do Caderno Mundo, do Jornal Folha de São Paulo, Cláudia Antunes, falou, entre outros assuntos, das diferenças do fazer jornalístico moderno, sobre o processo de produção do jornal, das dificuldades de cobrir os eventos estrangeiros e da posição política brasileira perante a comunidade internacional.
Segundo Cláudia a diferença básica do trabalho nas redações de hoje é o uso da Internet. Embora seja um recurso inovador, as facilidades da rede não são bem aproveitadas, ou seja, as redações ainda usam muito as Agências de Notícias, mesmas fontes com perspectivas parecidas e pontos de vista ocidentais. “O que falta é explorar a diversificação de fontes”, orienta.
Durante a fala, a editora diagnosticou as dificuldades do jornalismo brasileiro nas coberturas internacionais, nascidas da ausência de uma agenda própria. Em outras palavras, a sociedade brasileira, enquanto representação no campo político, não tem identidade nem prioridades na política externa. Os redatores não entendem, segundo Cláudia, que as notícias de agências são incompletas; “deve-se acrescentar opiniões de fontes brasileiras” ensina. Essa postura aproxima a notícia do leitor nacional.
O pouco empenho ou a confiança em cobrir o próprio país, visto pelas comunidades internacionais, foi outro assunto abordado. O Brasil tem muita atuação, entretanto é raro cobrir sua presença nos fóruns estrangeiros. Por exemplo, pouco se relata que presidimos, na ONU, a Comissão de Distribuição de Material Nuclear. Quando questionada sobre o interesse do mundo pelo país, Cláudia respondeu “há muito, e aumentou nos últimos anos”.
A redação jornalística nas coberturas internacionais foi outro tema comentado no auditório entre os profissionais e estudantes. A editora afirmou que há bastante reprodução de clichês por limitação cultural dos jornalistas ou por se deixar dominar pelo senso comum ou estereótipos. As imagens da África, por exemplo, são sempre de miséria. "Não se fala que Angola cresce 18% ao ano após a guerra civil", informa; não há correspondentes lá. Conclui daé que esse procedimento facilita, a manipulação.
A linguagem deve ser usada com cuidado, porque é uma porta aberta à essa manipulação, que acontece nas mínimas coisas, como na adjetivação. O termo “populista” para diminuir é um exemplo. “A linguagem é importante porque não é neutra, o tom mostra a parcialidade”, afirma Cláudia.
Sobre os bloggs, ela chama atenção que as informações desses veículos não podem ser usadas como fontes, porque nem sempre são escritas por jornalistas. São de bloggs, portanto, na editoria internacional da Folha de São Paulo, elas são usadas somente para aferir a temperatura e repercussão de uma notícia. A respeito da importância da imagem, a editora explica que ela deve completar a informação, “mas não é o processo mais pensado do jornal”, ressalta.
Por fim, a editora do Mundo responde sobre o perfil de um(a) jornalista internacional: Deve saber História ou conhecer os antecedentes. Ter curiosidade sobre outros países, afastando os preconceitos de culturas diferentes e, naturalmente, saber línguas.
Um andarilho colhe notícias nas guerras
Atuando como “repórter especial” do jornal O Estado de São Paulo, Lourival Sant’Anna começou na Folha, chegou a editorialista, trabalhou na BBC de Londres, atuou em vários países cobrindo conflitos. No Oriente Médio: Síria, Líbano, Irã, Iraque, Paquistão, Cisjordânia, Afeganistão e Israel. Nas Américas: México, Colômbia, Bolívia, Venezuela e Cuba. Sant'Anna escreveu o livro: Viagem ao Mundo dos Taleban, em que conta a experiência de entrevistar líderes talebans logo após os atentados terroristas de 11 de setembro. Ele fez, ainda, a recente cobertura da guerra no Líbano.
O jornalista goiano explicou que o contato com as fontes nos países em guerra se faz através das embaixadas brasileiras. Em Israel, é necessário se cadastrar para receber uma lista de informantes. Também conta-se com a Cruz Vermelha, a ONU, universidades e seus departamentos específicos de História, além das vítimas comuns.
Essas pessoas contam histórias verdadeiras, e o leitor gosta de relatos dos outros. As fontes oficiais estão treinadas para fazer declarações, é diferente das estórias comuns. No meio das desgraças há algumas muito interessantes, bonitas, de amor e amizade. "E temos que passar isso, porque o jornalista tem um compromisso emocional com o entrevistado", confessa.
Falando sobre a posição do profissional no país em guerra, ele diz que precisa ler sobre o conflito e se localizar onde está o acontecimento. Antes disso, Lourival aconselha aquele “foca” que quer seguir o caminho de correspondente no exterior, que os critérios necessários para exercer a atividade passa por ter um ter boa forma física, saúde, humildade, criatividade, não ter idéias pré-estabelecidas e colocar-se à disposição para aprender e reaprender.
Sant'Anna exibiu várias fotos dos muláhs muçulmanos (regentes de escolas), os encontros com os líderes Taleban (estudantes do Alcorão), a presença dos soldados das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) nas ruas e no campo colombianos, o levante dos cocaleiros e mineiros na Bolívia, situações de guerra na Cisjordânia, Afeganistão, Iraque, Gaza, Líbano e Venezuela. Á proporção que mostrava os registros fotográficos, ele descrevia os eventos e dificuldades, vividos por ele, na busca de informações.
Para contar estórias é preciso saber escrever, assim o repórter define o papel do jornalista. O correspondente internacional conta que uma das coisas que mais o impressionou, na viagens, foi a destruição do patrimônio cultural iraquiano e as estórias daqueles que perderam seus entes queridos. "O Hezbollah atende socialmente as famílias dos martires e suicidas", informou.
Sant’Anna falou sobre a imparcialidade numa cobertura de guerra. Para ele, só precisa contar a história. É asneira ter que ouvir o outro lado. “O repórter não tem que ter um lado, tem que estar no lugar”, constata.

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