Pautando Economia e Política

Blog desenvolvido por alunos do 6° semestre do curso de jornalismo da FIB- Centro Universitário, através da discplina Jornalismo Especializado, orientada pelo professor Zeca Peixoto.

Wednesday, November 08, 2006

Eleições atuam no palco eletrônico

Neuma Dantas

Centrar a análise em programas de governo, observar os feitos, a trajetória política ou discutir propostas dos candidatos deixaram de ser focos da imprensa em processos eleitorais.
A ânsia por visibilidade midiática, possivelmente, seja uma razão considerável que explique, porque profissionais da comunicação, a população e os próprios atores políticos desviem sua atenção para a mídia nesses períodos. Os escândalos financeiros e jornalísticos rechearam, exaustivamente, a campanha e o palco eletrônico em 2006. Afinal, o show tem que continuar.
A expedição rumo ao pleito começou morna com os candidatos ao Palácio do Planalto, Cristovam Buarque, Geraldo Alckmin e Heloisa Helena, atacando o presidente que disputa a reeleição. As denúncias de corrupção e a bandeira da ética, foram o mote principal dos oponentes. Entretanto, apesar das críticas e denúncias, em processo de apuração, as pesquisas insistiam em favorecer o presidente Luis Inácio Lula da Silva.
Na reta final da primeira campanha, um polêmico conjunto de documentos que comprovavam ligações do candidato ao governo de São Paulo, o ex-prefeito José Serra, com o “esquema dos sanguessugas”, nome dado a prática da compra de ambulâncias super faturadas, transformou-se no motivo que afastou o candidato, com maior percentual de intenções de votos, da vitória no 1º turno.
Colaboradores do Partido dos Trabalhadores foram presos no Hotel Íbis, na capital paulista, com R$1,75 milhões, supostamente destinados ao pagamento do “dossiê anti-Serra”. A dois dias das eleições, fotografias da montanha de dinheiro foram mostradas pelo noticiário da noite, seguidas de manchetes dos principais jornais da manhã seguinte, resultados de uma engenhosa operação promovida pelo delegado Edmilson Bruno e a rede Globo de Televisão.
O fato, junto à ausência do presidente Lula no último debate, responderam as interrogações que provocaram o 2º turno eleitoral, segundo comentaristas. Fruto de uma atitude anti-ética, tanto do componente da Polícia Federal, quanto dos meios de comunicação, a veiculação das fotos coroou um espetáculo de mágica, cujos truques foram denunciados mais tardepela revista Carta Capital.
Professor de Comunicação e Política da Ufba, Wilson Gomes defende que a política midiática é uma política em cena ou para a cena. No outro lado, desdobram-se as manobras fora de cena, todas ligadas aos interesses econômicos, da comunicação e da própria política.
O show das CPI’s, as performances de Roberto Jerffesson e outros políticos direitistas, a maioria com telhado de vidro, as fotos dos milhões ou os debates com feição de arena eletrônica, configuraram espetáculos produzidos para os espectadores ou para os interesses em cena; a entrega do CD com as fotos, a omissão da fita gravada pelo delator ou as cartas fora da manga são exemplos de negócios escusos, celebrados fora da exposição pública, por isso, interesses fora de cena.

Radiografia do Brasil

Outras questões relevantes voltaram à ribalta nas eleições de 2006. O país, que muitos tentam desconhecer ou abafar, explodiu de forma gritante pelos diskets das urnas. Os assistidos/oprimidos pelos currais do coronelismo tiveram voz, os abafados pela espiral do silêncio falaram e os elitistas explicaram a votação maciça do Norte/Nordeste com a tinta do atraso e da ignorância.
Em reportagem especial, Os Brasis ocultos da eleição, do jornal O Estado de São Paulo, de 08 de outubro, o sociólogo e doutor em Geografia Humana, Demétrio Magnoli, analisa o resultado das urnas no 1º turno valendo-se das teorias de Jacques Lambert, no livro Os dois Brasis. O professor diz que “a onda azul” de Alckmin corresponde ao Brasil moderno de Lambert; “a onda vermelha” de Lula é o outro Brasil do pensamento dualista.
Por dualismo lê-se o moderno e o arcaico, o legal e o real, o rico e o pobre. Numa análise mais preconceituosa que real, o sociólogo diz que as exceções mostram que “o Brasil ganhou novas fronteiras eleitorais”. Sim, principalmente na segunda parte da campanha, quando Lula arrebanha votos tucanos classe média, no Sul/Sudeste, consagrando-se com 61% da preferência dos eleitos.
A luta continua...

A guerra midiática continuou na temporada do 2º turno, o universo comunicacional seguiu controlando a visibilidade pública. Para o Prof.Gomes estar em exposição nos meios de comunicação é fundamental para angariar votos. Não é à toa que as despesas de produção midiática, das campanhas dos candidatos Alckmin e Lula, giraram em torno de 70% do orçamento. O conteúdo dos programas de governo importa menos que a aparência dos candidatos em todas as suas frentes.
A conclusão não é arbitrária, trata-se de constatações alcançadas pelas pesquisas dos especialistas na área. Além disso, a própria experiência mostra que características específicas do campo político vêm se alterando. Contatos corpo a corpo, questionamentos diretos sobre as intenções de governo e esvaziamento de idéias são exemplos das mudanças que deslocam o teor importante das campanhas para o terreno interessante que leva ao “espetacular e escandaloso”.
Em entrevistas, carreatas, debates, caminhadas, comícios, propaganda gratuita no rádio e na TV, os partidos em disputa lutaram em meio a declarações polêmicas, troca de agressões e, sobretudo defesa de suas teses. O PSDB impunha a bandeira da ética, como se puros fossem; o PT estabelecia comparações com os governos de FHC, tentando superar as ocorrências escandalosas.
Escândalos políticos são propensos a acontecer nas democracias liberais. Um fator facilitador para essas ocorrências, de acordo com John Thompson, é a “relativa autonomia da imprensa”. Diz ele que, em estados democráticos, os meios de comunicação são capazes de divulgar ações que podem conduzir a escândalos, “e alguns setores da imprensa estão particularmente bem equipados para articular publicamente um discurso sobre escândalo”. A semelhança com a denúncia da revista dirigida por Mino Carta sobre “a trama que levou ao segundo turno”, não é mera coincidência.
Não vamos dizer que a comunicação reduz a política no mundo contemporâneo, até porque ela abre caminhos e mostra a arena do cerrado aos grotões brasileiros. Os escândalos fazem parte do jogo e acabam contribuindo para o desmascaramento das relações ocultas que, muitas vezes lesam o patrimônio público e, conseqüentemente, aperfeiçoam a democracia.

Quanto ao show, esse sim, pode afastar a missão que a política deve exercer junto ao povo para a formação da cidadania, através da consciência do voto em todos os tempos. A não ser, merece observação, quando o show configura-se mesmo um espetáculo. É o que aconteceu em 2006, o candidato presidente resistiu às forças visíveis e invisíveis e tornou-se, flagorosamente, o vencedor.

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