Pautando Economia e Política

Blog desenvolvido por alunos do 6° semestre do curso de jornalismo da FIB- Centro Universitário, através da discplina Jornalismo Especializado, orientada pelo professor Zeca Peixoto.

Saturday, October 28, 2006

O espetáculo do dossiê

Neuma Dantas


Nas eleições de 2006 para presidente da República, mais uma vez, foram acionados recursos duvidosos ou ocultos, empreendidos por partidos políticos e poderosos da mídia, para impor seus interesses eleitorais a todo custo. Empresa de comunicação e seus representantes executivos, repórteres e delegado da polícia federal, envolvidos no caso “dossiê”, protagonizam um escândalo, muito mais jornalístico do que político.

A revista Carta Capital de 18 de outubro, em matéria intitulada A trama que levou ao segundo turno - Os fatos ocultos, de autoria de Raimundo Rodrigues Pereira, denunciou a omissão de informações pela rede Globo de televisão, em sua edição às vésperas das eleições do 1º turno.

A supressão está relacionada a detalhes contidos em fita gravada que demonstram a operação montada pelo delegado Edmilson Pereira Bruno, quando da entrega de um CD com fotos de dinheiro vivo, aos jornalistas convocados para um inusitado encontro além dos muros da polícia. Tais imagens comprometedoras da reeleição de Lula, retratavam dollares e reais, valores que supostamente comprariam o dossiê anti-Serra dosVedoin.


Recordando os passos

A história começou no dia 15 de setembro, dia em que Valdebran Padilha e Gedimar Passos, ligados ao PT, foram presos pela Policia Federal com o pacote de 1,7 milhões de reais para compra das provas que incriminariam os candidatos paulistas no esquema dos sanguessugas. No final da tarde desse mesmo dia, equipes de Alckmin, Serra e da Globo foram as primeiros a chegar no prédio da polícia federal, em São Paulo, seguidos depois pelos representantes da Folha, CBN e TV Bandeirantes, quando ainda ninguém sabia do ocorrido. A reportagem da Carta pergunta, quem avisou a eles da prisão? E mais, a quem interessava divulgar a história do dossiê?

Seguindo o roteiro da operação, dia 29 de setembro, o delegado que prendeu os prepostos do Partido dos Trabalhadores, convocou jornalistas para entregar um CD com 23 imagens do dinheiro, que ele mesmo produziu escondido, recomendando que fossem veiculadas, principalmente, no Jornal Nacional, dia seguinte, antes das eleições. Promessa cumprida também pela Folha e Estadão, a superexposição mostrava as fotos, sem, no entanto, veicular o teor da fita gravada com o diálogo do policial com os profissionais da notícia.

O autor da matéria questiona por que não foi explicada ao público a clara intenção em interferir politicamente no processo eleitoral, tanto da parte do delegado afastado do caso, quanto dos veículos de comunicação. Sinal de manipulação explicita.

Entramos no universo da ética profissional, devassadamente ultrapassado pela jornalista da Folha, que atendeu o pedido de Bruno de divulgar que as fotos foram roubadas. A ocorrência leva Raimundo Pereira novamente a questionar: Qual o sentido de publicar uma informação mentirosa, que ainda ajudava o policial a tentar enganar a própria imprensa”?


A teoria explica a prática e vice-versa

Encontramos respostas às perguntas, na própria reportagem e no artigo publicado no Observatório da Imprensa, em 24 de outubro/06, onde sua autora, Liziane Guazina comenta que, infelizmente, as falhas da cobertura do Jornal Nacional e os vazamentos de informações não são atípicos nas relações entre jornalistas e fontes. A razão é que as empresas de comunicação visam seus interesses na dança do poder.

Guazina pontua seu texto com citações de vários teóricos conhecidos de nossos estudos, a exemplo de Gaye Tuchman, socióloga norte-americana, que derruba o mito da objetividade e do profissionalismo. Interpretando o que diz a teórica, a objetividade é uma manobra operativa na qual se apóia o jornalista para tomar uma decisão sem riscos. Portanto, enganado estava, o diretor de Jornalismo da rede Globo, Ali Kamel, quando emitiu justificativas sobre seu procedimento anti-ético, baseando-se no empenho de “informar com correção e imparcialidade”. Inverdades e mitos da profissão.

O artigo de Liziane também recorre ao jornalismo a serviço das fontes e a prática declaratória dos depoimentos passarem a valer mais que a apuração dos acontecimentos. “As análises de cobertura jornalística mostram que não é o fato que se destaca, mas as versões sobre o fato”, afirma. Assim o delegado Bruno disse o que quis, escolheu quando, como e a quem revelar suas informações – “sem que os interesses que o levou a tanto sejam expostos claramente nas reportagens”, exemplifica a autora do texto.


Pauta da vez

Outros articulistas como Paulo Henrique Amorim, Marcelo Salles, Reinaldo Azevedo, Mino Carta, as revistas semanais, periódicos impressos e sites diários, rádio, TV, enfim, a mídia brasileira volta-se para o assunto dossiê. Fala-se e escreve-se de forma espetacular, criando desdobramentos, incriminando pessoas, supondo fatos e até acreditando em depoimentos falsos para temperar com pimenta o escândalo que ocupa a cena eleitoral.

Apesar da maioria dos órgãos de imprensa praticarem o anti-Lula e pró-tucano, e não só a Globo, funcionários de seus quadros reclamaram da atitude de se fazer jornalismo unilateral. Afinal Abel Pereira e Barjas Negri e José Serra, ligados ao PSDB, também tinham relações com os Vedoin, empresários chefes da máfia dos sanguessugas.

Entre as dez perguntas encaminhadas à Globo, pela Carta Capital o teor da nº5 é o seguinte: Por que, a partir do escândalo do dossiê, o Jornal Nacional não citou que 70% por cento das ambulâncias da Planam foram liberadas na gestão do PSDB? Não fica difícil concluir, diante da desigualdade de posições, os critérios escolhidos para cobrir o período eleitoral pela emissora de maior audiência no país.

TV Globo, o delegado e outros assuntos capitais é o título do artigo de Marcelo Salles, escrito em 24 de outubro último, onde ele lança um desafio para o debate público, sobre a questão espinhosa do modelo atual de comunicação, controlado pelo oligopólio da rede Globo. Conforme o jornalista, se tivéssemos outras opções, a emissora não teria o poder de influenciar psicologicamente ou interferir concretamente no processo eleitoral. A Constituição Federal, ao contrário, garante, em tese, a liberdade de escolha e de expressão de qualquer brasileiro.

Grotesco espetáculo

Tais acontecimentos e práticas estranhas aproximam o jornalismo político do espetáculo midiático a que está exposta a vida contemporânea. Em seu livro A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord diz, que “o espetáculo é o coração da irrealidade da sociedade real” e acrescenta que “sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante”. E não é isso que se tornou o ambiente eleitoral?

Mesmo sendo proibidos os showsmícios, certos atores políticos encontram formas diferentes, sem ser inovadores, de chamar a atenção ridicularizando seus opositores; mais que isso, desconheceu-se qualquer procedimento balizador da ética ou princípio que faz dessa técnica de informar, uma profissão.

O mote é forjar um espetáculo para provocar conseqüentes prejuízos eleitorais. Possivelmente, esses personagens são os mesmos que abominam a idéia do Conselho de Jornalismo. Claro querem continuar ditando as regras na política de comunicação no país. Parece que o povo não aceita, prova são os resultados das pesquisas para eleger o próximo presidente.



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